Opinião: Brincar e brincadeira em tempos de quarentena

 


por Gabriel de Aguiar Antunes, professor dos cursos de Educação Física e Pedagogia da Univali - gabriel@univali.br | 09/06/2020

​Como podemos pensar sobre a educação corporal das crianças em tempos de pandemia da Covid - 19? Quando falamos de brinquedos de que é que estamos a falar? O brinquedo é uma concepção de adulto ou de crianças? O que as entidades internacionais orientam sobre o tempo que deve ser aproveitado em brincadeiras em formas de exercícios físicos e atividades físicas?

Em tempos de pandemia da Covid - 19 é sempre bom dialogar e orientar as famílias sobre a saúde das crianças. Principalmente porque as atividades escolares, corporais e a educação física estão a ser realizadas de modo remoto e as famílias, mais do que nunca, em meio ao que viemos enfrentando estão conectadas as diferentes mídias – interagindo e se informando. O que requer contato com os professores para acompanhamento do desenvolvimento de suas crianças.

Como disse João Batista Freire, primeiramente temos que pensar na educação das crianças na sua totalidade. E no movimento corporal dos pequenos como essencial no processo de todo o desenvolvimento infantil, e isso perpassa a iniciativa, a criatividade, a experiência, os sentidos, a invenção e a descoberta pelas crianças em vários coisas e contextos. Logo deve haver a capacidade de as famílias nesse período de se reorganizar e ter a flexibilidade para ajustarem-se as constantes mudanças no crescimento das crianças. 

É bom lembrar que a brincadeira tem um fim em si mesma. E que o brincar não busca fins outros que não o próprio brincar, o prazer de fazê-lo. O brinquedo e a brincadeira relacionam-se com a criança e a cultura infantil. E podem não produzir somente prazer, mas também perdas, ódio, descontentamento, alegria e decepção, como apontou Maria da Conceição de Oliveira Lopes em seu estudo “O brinquedo como médium de comunicação e ludicidade das crianças: contributos para a compreensão dos brinquedos”.

O brinquedo tem que ser compreendido como um objeto cultural que carrega a cultura e a técnica de um povo, traz para a criança a oportunidade de brincar, é suporte de brincadeira. Sendo assim nas mãos de um pequeno, desde que presente a liberdade para o lúdico, para o brincar, como disse Tizuko Morchida Kishimoto, em “Jogo, brincadeira e a educação física na pré-escola”, qualquer objeto vira brinquedo.

Então sugerimos as crianças nessa época de pandemia brincarem com os elementos que podem ser tornar brincantes tais como: folhas das árvores, pedaços de tronco, flores, pedras, água, o seu próprio corpo, o corpo da mãe ou do pai. Mas, também, sacos, utensílios de cozinha, vassouras, panos, papéis, cartões, as roupas, sapatos, acessórios dos pais, embalagens de alimentos não perecíveis, a imaginação e a criatividade da criança. Nesse sentido, para a criança, o brinquedo é ação de brincar.

É deixar realmente a criança ser criativa e inventar novas maneiras de se brincar e de inventar brinquedos. E de se pensar na concepção de brinquedo e brincadeira, nesses tempos difíceis, não somente a uma alusão adulta de um brinquedo pronto e acabado. Afinal de contas a educação é bem sucedida quando acompanhada por especialistas e família.

Nesse sentido a Organização Mundial Saúde (OMS, 2019) por meio das “Orientações sobre atividade física, comportamento sedentário e sono para crianças menores de 5 anos (Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age)”, apresenta uma série de orientações, que basicamente exprimem três recomendações essenciais as quais dirigem o foco para a o retorno do incremento de brincar com as crianças. São as principais recomendações da OMS para a atividade física com crianças de zero a quatro anos:

Bebês (menos de um ano)

  • ​Devem estar fisicamente ativos várias vezes ao dia de várias maneiras, particularmente por meio de brincadeiras interativas no chão; quanto mais melhor. Para aqueles que ainda não se movem, isso inclui pelo menos 30 minutos em posição de bruços, repartidos ao longo do dia enquanto acordados.

  • Não devem permanecer sujeitos a contenção por mais de uma hora seguida (por exemplo: em carrinhos de bebê, cadeiras altas ou acondicionado nas costas de um cuidador). Não se recomenda que passem tempo em frente a telas. Em momentos de inatividade, recomenda-se que um cuidador leia ou conte histórias.

  • Devem ter 14 a 17 horas (zero a três meses de idade) ou 12 a 16 horas (quatro a 11 meses de idade) de sono de boa qualidade, incluindo cochilos.

Crianças de um a dois anos

  • Devem passar ao menos 180 minutos em uma variedade de atividades físicas em qualquer intensidade, incluindo atividade física de intensidade moderada a elevada, distribuída ao longo do dia; quanto mais, melhor.

  • Não devem ficar restritas por mais de uma hora seguida (por exemplo: carrinhos de bebê, cadeiras altas ou acondicionadas nas costas de um cuidador) nem permanecer sentadas durante longos períodos de tempo. Para crianças de um ano de idade, não se recomenda tempo em atividades sedentárias em frente a uma tela (assistindo TV ou vídeos ou em jogos de computador). Para aquelas com dois anos de idade, o tempo sedentário em frente a telas não deve ser superior a uma hora; quanto menos, melhor. Em momentos de inatividade, recomenda-se que um cuidador leia ou conte histórias.

  • Devem ter de 11 a 14 horas de sono de boa qualidade, incluindo cochilos, com horários regulares para dormir e acordar.

Crianças de três a quatro anos

  • Dev​​em gastar ao menos 180 minutos em vários tipos de atividades físicas em qualquer intensidade, das quais pelo menos 60 minutos de intensidade moderada a elevada, repartidas ao longo do dia; quanto mais, melhor.

  • Não devem ficar contidas por mais de uma hora seguida (por exemplo, em carrinhos de bebê) ou ficar sentadas por longos períodos. O tempo dedicado a atividades sedentárias em frente a telas não deve exceder uma hora; quanto menos, melhor.  Em momentos de inatividade, recomenda-se que um cuidador leia ou conte histórias.

  • Devem ter de dez a 13 horas de sono de boa qualidade, que podem incluir cochilos, com horários regulares para dormir e acordar. 

O importante conforme sugere a OMS: “substituir o tempo em que as crianças pequenas permanecem sujeitas ou dedicadas a atividades sedentárias em frente a telas digitais”, por atividades mais ativas. De modo a substituir o tempo com a interação com a família/cuidadores ou outras crianças - quando possível, com leitura, contação de histórias e música.

Também devem ser incentivadas a brincarem com elementos que podem se tornar brincantes tais como: folhas das árvores, pedaços de tronco, flores, pedras, água, o seu próprio corpo, o corpo da mãe ou do pai. Com bolas, sacos, utensílios de cozinha, vassouras, panos, papéis, cartões, as roupas, sapatos, acessórios dos pais, embalagens de alimentos não perecíveis, no sentido de estimular a imaginação e a criatividade da criança. Ou seja, para a criança o brinquedo é ação de brincar.

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