30/06/2010
Morte e cachaça na terra de ninguém
Por Sílvia Mendes e Tamara Belizário
Os brasileiros ainda choravam a morte de Ayrton Senna quando outro “da Silva” apanhou até morrer no Bar e Cancha do Calo, em Camboriú. Ariston era deficiente físico, “um anão defeituoso”, trabalhava como gari e gostava de fazer piada sobre os outros. Passou pela frente do bar zombando dos seus frequentadores. Um dos bêbados tomou as dores da brincadeira e matou o rapaz na base dos pontapés. O Mal de Alzheimer, a velhice ou o desinteresse pelo morto fizeram com que os presentes no homicídio do pobre coitado esquecessem o que realmente aconteceu naquele dia. Foi só mais uma morte. “Não foi o único assassinato aqui, nem a última coisa doida que eu ia ver nessa cancha”. Calo – o dono do bar – conta como se descrevesse seu café da manhã: dando a mínima. É que essa foi só mais uma das muitas estranhezas que ele já viu por lá.
A outra morte foi por ciúme, por conta da briga no jogo e também porque estavam todos meio bêbados – chegaram por volta das quinze horas e, agora, já ia embora a tarde silenciosa de primavera. Bonifácio, mais conhecido como Seu Bem, é frequentador da cancha há uns trinta anos e diz que foi por maldade mesmo: “naquela época, matar não era grande coisa”. Enfim, por maldade, ciúme, briga, álcool ou só vontade mesmo, Zeca da Flor matou o filho do falecido Alcides com uma bolada de bocha na cabeça. Nem o dono do bar nem os seus frequentadores mais antigos lembram do nome da vítima. A bola ainda está lá. Foi lavada, claro.
Se as paredes da cancha – manchadas de sangue, cachaça e ovo cozido – falassem, teriam mil histórias pra contar. Cada um de seus frequentadores assíduos – todos já idosos – perderia fáceis horas descrevendo causos e partidas de dominó ou bocha em que ganharam por mérito ou perderam por roubo do adversário. Bêbados, jogadores ou apenas admiradores de uma boa prosa, o público do Bar e Cancha do Calo envelheceu com o estabelecimento, sempre lá, perto do hospital, na rua São Paulo, esquina com a José Francisco Bernardes, quase no centro de Camboriú.
Antes de ser do Calo, a cancha foi do Baca. Antes disso, do Henrique Bertoldi. Antes, do Nelsi. Mas não tinha alma. A alma surgiu com seu último e atual proprietário. Apareceu sutil entre os copos pequenos, lascados na borda, que servem laranjinha, pinga de procedência duvidosa e cerveja. Fez-se mais densa no silêncio compartilhado durante as partidas de bocha. Ganhou proporções de Golias nos cálculos mentais estimulados pela cachaça no dominó e nos ovos, cozidos pela esposa de Calo, Dona Marizilda.
Aliás, é uma ditadora, a mulher. Uma matrona de cabelos tingidos de preto, tão secos que parece impossível dobrá-los sem que se partam. As bochechas vermelhas, o avental sujo. Sempre com cara fechada para não dar abertura aos homens que viram machos depois de beber. Controla tudo: o Calo, a cancha e a velharada. Outro dia expulsou dois bêbados que começaram briga no bar (“não tenho mais paciência pra isso!”) apontando para eles a vassoura com tamanha dignidade que era como se pudesse sair dela – da vassoura velha de palha – uma bala de canhão.
Dona Marizilda tem orgulho do que construiu. Ano passado, pela primeira vez em dez anos, a cancha foi reformada. Ela que escolheu as cores: amarelo canário com detalhes em vermelho vivo. Na fachada imponente se lê “Bar e Cancha do Calo”.
Nem só de bêbados viverá o bar
Calo, lá em Camboriú, é apelido pra Carlos. Se tiver matadouro, é Calo do Matadouro. Se for filho ou júnior, é Calinho. Se for gordo, Calão. Tem peixaria? Calo do Peixe. Açougue? Calo Benassi. Logo, Calo da Cancha. Nasceu em Apiúna, cidade minúscula no Médio Vale do Itajaí. Mudou com a mulher pra cá na década de setenta e – com dinheiro guardado a duras penas – comprou o bar. Aprendeu o ofício com o pai, que tinha armazém.
Calo da Cancha é homem bom, mas não se envolve nos problemas dos outros. Até se solidarizou quando o deficiente morreu apanhando, mas é porque conhece bem essa realidade: seu maior companheiro e herdeiro do bar também é deficiente. Com uma doença degenerativa que atrofia seus músculos, Calinho, que herdou o nome e os amigos do pai, está sempre em algum canto do bar: um objeto decorativo rodeado de gente. O Calinho, tivesse futuro, tocaria a cancha. Mas não dura muito.
Os outros três filhos passam longe da birosca. As duas mulheres casaram e não se interessaram pelo futuro das quatro paredes apodrecidas pelo tempo. A mais velha se defende: “bar não é ambiente pra mulher”. O segundo filho-homem também não pretende seguir a profissão do pai: é estudado, mora num apartamento em Balneário Camboriú, coisa fina.
O problema é que o Calo da Cancha está velho. Cabelo branco, óculos grandes demais para o seu rosto redondo. As lentes grossas que escurecem sob a luz do sol escondem um rosto frágil, apesar das feições duras – típicas daqueles que já viram e viveram coisas demais. As expressões de Calo mostram o que o velho já espera pelos derradeiros dias. O Calinho sentado na cadeira sem poder andar, os idosos jogando as bolas na cancha e disputando partidas de dominó, o ar de abandono que toma conta do ambiente e das pessoas... Tudo indica que resta pouco tempo: o destino do Bar e Cancha do Calo não é muito diferente daquele esperado pelo seu dono.
